
1470 até Hoje
A História das
Ilhas do Chocolate
Do assentamento português ao tráfico esclavagista, o boom do cacau, o massacre, a independência e a democracia. Uma pequena ilha com um passado grande e complicado.
São Tomé e Príncipe estava desabitada quando os navegadores portugueses chegaram em 1470. Nos cinco séculos seguintes, as ilhas foram uma colónia açucareira, um ponto de trânsito no tráfico esclavagista, o maior produtor mundial de cacau, uma colónia portuguesa e, desde 1975, uma república independente e uma das democracias mais estáveis de África.
Os vestígios físicos desta história estão por toda a parte. Igrejas e edifícios administrativos de época colonial na capital. Propriedades de roças espalhadas pelas encostas, desde as belamente restauradas até às elegantemente arruinadas. Árvores de cacau ainda a crescer em terras plantadas há dois séculos.
Compreender a história não diminui o prazer das ilhas. Aprofunda-o. Este é um lugar que foi moldado por forças extraordinárias, e a paisagem e a cultura carregam essas marcas de formas que recompensam o visitante curioso.

Uma carta náutica portuguesa de São Tomé, da época em que a ilha era o centro do comércio de açúcar do Atlântico.
Cinco Séculos
Uma Cronologia das Ilhas
Descoberta
No dia da festa de São Tomás, os navegadores portugueses João de Santarém e Pêro Escobar chegam a uma ilha equatorial desabitada no Golfo da Guiné. Dão-lhe o nome de São Tomé, a ilha de São Tomás. Uma segunda ilha, avistada dez dias antes no dia de Santo António, torna-se Príncipe. Ambas as ilhas estão desertas: sem população indígena, sem qualquer assentamento. Uma tela em branco no limite do mundo conhecido.
Primeiros Colonos
É estabelecido o primeiro assentamento permanente português. A Coroa envia colonos, incluindo condenados soltos especificamente para esse fim, juntamente com um pequeno número de crianças judaicas expulsas da Península Ibérica após a Inquisição Espanhola. As ilhas são difíceis: calor equatorial, doenças e isolamento. A mortalidade inicial é alta. Os colonos que sobrevivem começam a construir algo.
O Açúcar e o Tráfico Esclavagista
O cultivo da cana-de-açúcar transforma São Tomé numa das colónias açucareiras mais produtivas do Atlântico. A mão-de-obra vem de pessoas escravizadas trazidas do continente africano, e São Tomé torna-se um nó central no tráfico transatlântico de escravos, um ponto de trânsito entre África e as Américas. No seu auge, em meados do século XVI, a ilha é o maior produtor de açúcar do mundo. A riqueza é real. Também o é a violência em que assenta.
Declínio e Ataques Holandeses
A economia do açúcar começa a declinar. A concorrência do Brasil, os ataques de corsários holandeses e franceses, e uma série de revoltas de escravos enfraquecem a colónia. Os holandeses saqueiam a cidade de São Tomé repetidamente no início do século XVII. O domínio de Portugal sobre a ilha vai enfraquecendo. A economia contrai. As florestas, outrora desmatadas para a cana, começam a recuperar terreno.
O Boom do Cacau
Chega o cacau. As árvores de cacau, introduzidas do Brasil, revelam-se idealmente adaptadas ao solo vulcânico e ao clima equatorial de São Tomé e Príncipe. Na década de 1880, as ilhas tornaram-se os maiores produtores mundiais de cacau, posição que mantêm até ao início do século XX. O sistema de plantação reorganiza-se em torno da cultura do cacau. Vastas roças espalharam-se pelo interior e encostas da ilha, cada uma uma pequena economia em si mesma: edifícios de processamento, alojamentos para trabalhadores, a casa grande, por vezes um hospital e uma igreja.
O Sistema das Roças
O sistema das roças representa uma forma única de organização agrícola colonial. Cada propriedade funciona de forma semi-autónoma sob um administrador português, trabalhada por serviçais, trabalhadores trazidos de Angola, Moçambique e Cabo Verde ao abrigo de contratos que na prática se assemelhavam à servidão por contrato. O boicote da Cadbury em 1908, liderado pelo jornalista britânico Henry Nevinson que documentou as condições nas ilhas, chama brevemente a atenção internacional para as práticas laborais. A indústria prossegue praticamente sem alterações.
O Massacre de Batepá
Em fevereiro de 1953, sob o governador Carlos Gorgulho, as forças coloniais portuguesas massacram centenas de pessoas Forro, a população crioula indígena de São Tomé, na sequência de protestos contra as leis do trabalho forçado. As estimativas dos mortos variam entre várias centenas e mais de mil. O massacre, conhecido como Trindade ou Batepá, é um momento decisivo na consciência política santomense e um catalisador para o movimento de independência que se segue.
O Movimento de Independência
O Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe (MLSTP) é formado no exílio, principalmente em Libreville, no Gabão. O movimento assenta nas redes da diáspora dos trabalhadores do cacau e da comunidade Forro instruída. Portugal, sob Salazar e depois Caetano, recusa negociar. O movimento aguarda.
A Revolução dos Cravos
A Revolução dos Cravos derruba a ditadura portuguesa em Lisboa. O novo governo acelera a descolonização. As negociações com o MLSTP começam quase de imediato. A administração portuguesa nas ilhas começa a desfazer-se.
Independência
São Tomé e Príncipe alcança a independência a 12 de julho de 1975. Manuel Pinto da Costa, líder do MLSTP, torna-se o primeiro presidente. O novo governo nacionaliza as propriedades das roças. Muitos dos colonos e gestores portugueses partem. A indústria do cacau, privada de capital e conhecimento especializado, entra num declínio prolongado. As casas grandes começam a ficar em silêncio.
Democracia Multipartidária
São Tomé e Príncipe torna-se um dos primeiros países africanos a transitar pacificamente para a democracia multipartidária. É adotada uma nova constituição. Realizam-se eleições. O país estabelece uma reputação de estabilidade política e transferências pacíficas de poder que mantém desde então. Pelos padrões da região, e por qualquer medida honesta, é uma conquista notável.
Um País a Encontrar o Seu Caminho
As ilhas continuam pequenas, belas e a lutar. No início dos anos 2000 foi descoberto petróleo offshore, mas a produção manteve-se limitada. O cacau está a ser revitalizado, com produtores artesanais de pequena escala como Claudio Corallo a trazer novamente os grãos das ilhas à atenção internacional. O turismo cresce lentamente. As roças, algumas restauradas, outras em ruínas, outras algures entre as duas, permanecem os monumentos mais visíveis da extraordinária e complicada história da ilha.

O Sistema de Plantação
As roças: um mundo dentro da ilha.
Uma roça era uma propriedade de plantação. No seu auge no início do século XX, as roças de São Tomé e Príncipe cobriam a maior parte das terras produtivas da ilha. Cada uma funcionava como uma comunidade amplamente autossuficiente: fábrica de processamento, alojamentos para centenas de trabalhadores, escritórios administrativos, a casa grande do administrador português, uma igreja, por vezes um hospital.
Hoje, as roças existem em todos os estados, desde a ruína à restauração. Algumas são ainda explorações ativas. Outras foram convertidas em hotéis, restaurantes ou sítios culturais. Muitas estão vazias, com a sua arquitetura lentamente a ser recuperada pela floresta. Percorrê-las é uma das experiências mais singulares que as ilhas oferecem: um encontro direto com um mundo que acabou mas não desapareceu completamente.
Veja por si mesmo.
A história de São Tomé e Príncipe é mais fácil de compreender quando se está dentro dela. Os nossos passeios foram desenhados para unir a paisagem e o seu passado de uma forma que nenhum livro consegue.
Passeio a Pé por São Tomé
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Um guia completo à capital, os seus sítios e a sua história.
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Conselhos práticos para visitantes pela primeira vez às ilhas.
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